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Em maio deste ano, o prof. Isaac Nicolau Salum (1913 - 1993) deixou-nos para entrar no Panteão das Letras de nossa Faculdade de Filosofia, onde certamente o estavam esperando os amigos Tonioli, Maurer e Aubreton. Que falta nos fazem esses quatro humanistas e é pena que as novas gerações não possam conhecê-los pessoalmente! Privilegiado sou eu, que fui aluno do prof. Teodoro Maurer Jr., em Filologia Românica e Glotologia Clássica (quando me iniciei em sânscrito), do prof. Armando Tonioli, em Língua e Literatura Latina, do prof. Robert Aubreton, em Língua e Literatura Grega, e do prof. Isaac Nicolau Salum, em Filologia e Lingüística Românica, no curso de Letras Clássicas, de 1957 a 1960, ainda na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, no heróico prédio da rua Maria Antônia, ícone da resistência cultural e política dos anos 60. E, se a Faculdade de Filosofia foi (e espero que ainda seja) o espaço da resistência, bem como o centro da reflexão, da crítica e da produção do saber, ícone enfim da própria Universidade de São Paulo, o prof. Salum é, por sua vez, um dos ícones mais representativos da Faculdade na medida em que soube encarnar o melhor da missão crítica, formadora e humanista da Universidade. Não seria exagero dizer que o prof Salum foi, até certo ponto, o "rosto" da Faculdade de Filosofia, e falar dele é falar um pouco de todos aqueles que fizeram e fazem viver a nossa alma mater. Mas... o que falar do prof. Salum? A sua passagem pela Faculdade foi tão exuberante que talvez não caiba num depoimento limitado como este e deva, na verdade, ser matéria de uma dissertação de mestrado ou, melhor ainda, de uma pesquisa que conduza a uma tese de doutorado. Vou, portanto, ater-me a alguns aspectos de sua atuação como professor, pesquisador e como ser humano, irradiando um exemplo de sabedoria e humildade a servir de guia para todos os que querem aventurar-se pelas veredas do magistério. Tenho a certeza, contudo, de que o prof. Salum retrucaria, declarando categoricamente: "Eu não sou nem fui nada disso" (1). Mas, a tal declaração, eu responderia, citando um companheiro de correspondência do prof. Salum, e também seu coestaduano, o poeta Carlos Drummond de Andrade: "Faço mil coisas/ que criarão outras mil, aqui, além, nos Estados Unidos" ("Morte no Avião"). E quantas coisas não terá feito o prof. Salum? Aulas, conferências, orientação, conversas, conselhos, estímulos, artigos, teses, palestras, mais aulas, mais conselhos, mais orientação, mais conversas, contínuas e infatigáveis pesquisas, enfim.... a inteireza de uma vocação como professor. Mas que tipo de professor foi lsaac Nicolau Salum? Bem, sabemos que o magistério pode ser um exercício de poder, em que o mestre é o sujeito detentor do saber e o aluno, o "objeto que não sabe" (um "depósito vazio", no dizer de Paulo Freire). Outra foi a postura do prof. Salum. Em suas aulas e orientações, os alunos eram sujeitos participantes do processo do conhecimento e da busca da verdade científica, estimulados que eram por uma relação de horizontalidade e não oprimidos por um autoritarismo vertical. Tal relação de horizontalidade, que dissolvia barreiras e inibições e permitia a criação de um clima de descontração indispensável à pesquisa científica, devia-se certamente a algumas atitudes metodológicas (e sobretudo ideológicas) do prof. Salum como: 1) Despojar-se de análises pedantes e pretensiosamente científicas, procurando, antes de tudo, auscultar o texto, deixá-lo "falar" e extrair as intermináveis lições que ele pode nos oferecer. Esse procedimento filológico (é bom lembrar que, etimologicamente, o filólogo é "o amigo do texto") não está longe da semiose infinita, de que nos fala Umberto Eco, ao aludir às múltiplas possibilidades de leitura dos signos. 2) Levar os alunos a desconfiar da percepção linear e estereotipada de um texto, conduzindo-os a uma visão estrutural e "icônica", por meio de uma técnica de desmontagem e remontagem sintático-estilístico-semântica. Trata-se de uma verdadeira anatomia do texto, como foi o caso apenas para citar dois, dentre as centenas de textos "remontados" pelo prof. Salum dos poemas "Marabá", de Gonçalves Dias, e de "No Meio do Caminho", de Carlos Drummond de Andrade: a "fotografia" sintático-estilística dos poemas nos leva a enxergar Gonçalves Dias e Drummond com novos olhos (2) (ver os Anexos I e II, no final do texto). A origem desse método de reorganização lingüístico-retórica do texto nos é contada pelo prof. Salum, numa passagem em que se evidenciam não só a humildade e a probidade científicas, mas também a preocupação humanística com a clareza do método: "Em 1944, numa classe do 2o clássico, tive de enfrentar um período complexo latino de 19 hexâmetros (Geórgicas, I, 24-42): é a parte final da 'invocação', que ali assume ares de 'dedicatória' e por isso Camões a tomou por modelo para fazer a sua 'dedicatória' d'Os Lusíadas. O verso 24 começa por Tuque adeo, seguem-se duas orações incidentes, o verso 25 retoma, no fim, Caesar, retornam as incidentes, até os vv. 40-42, que retomam a oração independente múltipla, iniciada no v. 24. Os alunos não puderam seguir e eu me desarvorei. Resolvi então buscar um meio, se não de desfolhar a árvore do texto, de torná-la transparente, deixando ver ao mesmo tempo o conjunto de galhos (grifos meus). Nasceu assim um método de visualização das linhas mestras do texto, que eu chamei de fórmula de constituição do texto, outras vezes radiografia do texto, mas só aplicando o processo ao período oratório na prosa ou no verso, para o latim, e depois também para o português. Chamo-o hoje Abordagem Lingüístico-Retórica do Texto e aplico-o também aos textos simples, só de pequenas frases coordenadas, e a experiência me vem mostrando que muitas vezes são esses os que mais problemas oferecem" (3). Para avaliar a repercussão interdisciplinar da abordagem lingüístico-retórica, ouçamos o que dizem a respeito os professores Antonio Candido e Segismundo Spina, dois expoentes da Universidade, respectivamente da área de Teoria Literária e da área de Filologia e Língua Portuguesa: "... num campo ele desamarrou: o da análise lingüístico-literária. Talvez porque os garfos e esquemas que inventou possuam um vago ar de quebra-cabeça, que, introduzindo certa atmosfera lúdica, parece atenuar o compromisso com o rigor e permitir maior liberdade. De qualquer modo, aí ele atua com desafogo e prazer, oferecendo largamente os resultados da sua desmontagem minuciosa, paciente e cheia de iluminações, que permite mostrar com segurança a anatomia e a mensagem dos textos. Sem bulha nem matinada, foi construindo um método original, preciso e fecundo, que ainda por cima tem a vantagem de projetar-se numa figura que o olhar abrange, dispondo o texto conforme a arquitetura do sentido real" (4). "... aí por volta de 1965, começaram a circular, entre os colegas da Faculdade de Filosofia, os gráficos de análise de texto do prof. Salum, altura em que a sua técnica amadurecia em método, conquistando aos poucos a adesão dos colegas, que de início enxergavam apenas nos seus gráficos um esquema decorativo, à guisa de arabesco... A distribuição dos esquemas foi aumentando, e gradativamente conquistando a curiosidade e o interesse de uma clientela que passou a acreditar nas novidades do sistema, pois ele superava o velho e acanhado método da análise lógica, abrindo novos horizontes na inteligência lingüística do texto, cujos valores semânticos, estilísticos, retóricos e, por que não dizer, a própria maneira de os autores visualizarem o mundo eram desconhecidos completamente pela abordagem sintática tradicional. Salum arrebentava de alegria quando percebia que seus esquemas eram examinados, estudados e às vezes até contestados pelos colegas. Não raro os gráficos eram redistribuídos em 2a e até 3a edição, pois o próprio autor muitas vezes se dava conta das imperfeições ainda existentes nos seus esquemas, ou acatava as opiniões divergentes que lhe pareciam válidas" (5). Além da irradiação do método, esses comentários ilustram sobretudo a figura intelectual e humana do prof. Salum, o seu rigor científico, o seu entusiasmo e a sua modernidade. 3) Desconfiar de modismos e de supostas novidades. Embora desenvolvesse uma leitura atenta e atualizada dos mais importantes autores da lingüística contemporânea (Saussure, Hjelmslev, Benveniste, Martinet, Jakobson, etc.), colaborando na tradução de muitos deles (Benveniste, Lyons e, particularmente, o Dictionnaire de Linguistique, de J. Dubois) ou introduzindo-os com brilhantes prefácios (Saussure), o prof. Salum não deixava de lado a lingüística histórica e diacrônica, realizando um saudável vaivém entre o "tradicional" e a modernidade, com um invejável conhecimento dos textos clássicos e das línguas antigas (grego, latim e hebraico). É o que se pode verificar à saciedade em dois autênticos monumentos de erudição e perspicácia lingüística (infelizmente, ainda inéditos), a saber: A Semana Astrológica e a Judeu-Cristã. Introdução à Problemática da Nomenclatura Semanal Românica, São Paulo, FFCL/USP, 1967, tese de livre-docência; A Problemática da Nomenclatura Semanal Românica, São Paulo, FFLCH/USP, 1968, tese de cátedra. Nesses e em outros trabalhos do gênero, há uma verdadeira escavação pelos textos antigos, em que o prof. Salum demonstra a atualidade do "tradicional" e confirma a sábia advertência do lingüista E. Coseriu, para quem a história da lingüística é cheia de ocos e, por desconhecimento da história das idéias sobre a linguagem, freqüentemente "descobrimos" conceitos e pensamentos que já tinham sido formulados no passado. Assim, num primor de artigo que é "As Vicissitudes dos Dêictico-anafóricos", o prof. Salum recupera considerável parte da história dos gramáticos, filólogos e lingüistas que trataram dos pronomes, e estabelece uma ponte luminosa entre o antigo e o contemporâneo. Esse trabalho é uma lição de método e de postura científica a ser lido por todos nós que, muitas vezes, nos empolgamos com autores e teorias aparentemente novos, mas que, no fundo, são tributários de todo um caudal de reflexões disseminadas numa intertextualidade a ser resgatada desde a antigüidade clássica. Note-se com que graça e sapiência o prof. Salum conclui o artigo: "Aí está o que se pôde realizar do que foi prometido. Se o problema tivesse ficado mais claro ao meu espírito, este estudo teria saído mais breve. Houve necessidade de citar textos não muito acessíveis, de traduzir outros não muito inteligíveis. Espero que, se a leitura deste texto chegar a cansar, não tenha sido muito entediante nem seja considerada como pura perda de tempo, e, sobretudo, que alerte o leitor para que não chame desdenhosamente 'tradicional' o que nos vem do passado nem proclame afoitamente como 'descoberta nova' o que o passado já tinha visto ou entrevisto. Toda cultura tem vicissitudes, não só os pronomes. Repensar a História é aprender da vida" (6). 4) Encarar a ciência e a própria universidade com uma atitude "brechtiana" de estranhamento. Utilizando a história, a etimologia e o conhecimento seguro dos fatos lingüísticos, o prof. Salum nos ensinava a reagir com humor e distanciamento crítico a algumas situações típicas do contexto universitário; assim, quando um colega, "... ao falar em gramáticos e filólogos, com uma pontinha de desdém, olhava para o meu lado e sorria, eu protestei, mas foi 'de mentira' ou, antes, foi mesmo de verdade', porque, infelizmente, não sou nada disso. Gramático é palavra derivada 'de gramma, 'letra', deverbal de grapho, 'escrever': gramático é o que mexe com os textos. Filólogo, de philólogos, é o 'amigo das palavras', 'amigo da cultura e da literatura', 'estudioso' (cf. o inglês scholar), amigo dos livros', o 'erudito' (o savant dos franceses), 'o amigo do texto'. Os chamados 'Gramáticos Alexandrinos' eram isso: leitores, editores, anotadores, críticos, de Homero, de Hesíodo, dos outros poetas gregos. Por isso, refletiam sobre a língua dos textos, e daí é que vieram os gramáticos. Dionísio, Trácio e Apolônio Díscolo, gregos que os latinos seguiram e que Prisciano, sobretudo, conservou. Tudo saiu do estudo dos textos" (7). 5) Estar disponível, dentro mas também fora do espaço da sala de aula. Sem nenhum formalismo, o prof. Salum conversava e trocava idéias sobre fatos lingüísticos com qualquer pessoa (não necessariamente o aluno "oficial"), independentemente da condição social, do momento ou do lugar. Para o prof. Salum, todo ser humano pode produzir uma "ciência" lingüística: para tal, é preciso que sejamos atentos observadores, com sensibilidade e memória atiladas, capazes de saber perceber, registrar e interpretar a contínua produção de fatos lingüísticos por parte do falante. Vale apreciar com que graça literária, e com que afeto, o nosso Mestre trata de um episódio lingüístico ocorrido em sua infância: "Nasci em 1913, e passei meus primeiros dezessete anos de vida num arraial do sul de Minas, chamado oficialmente São Sebastião da Ventania, e por nós Ventania, mas que passou a chamar-se, em setembro de 1914, Alpinópolis, sem qualquer semelhança com os Alpes. Complexos de inferioridade de um arraial, cuja grande aspiração era tornar-se vila. O Abrão Turco um maometano local, de alto porte e barbas grandes, cuja lembrança hoje me faz pensar no 'Moisés' de Miguel Ângelo, apostava céptico: 'Se Bentania bira de bila, Abrão bira de cabalo'. Pois veio a vitória: em 17/XII/1938, passou o meu arraial a cidade, a comarca, e hoje tem três ou quatro grupos escolares e um ginásio estadual, e mantém, no seu município, a hidrelétrica de Furnas, que manda luz para São Paulo" (8). Essa figura exemplar de professor foi também marcada por uma série de iniciativas, tarefas e atitudes, tais como: a) Participação
estimulante em diversos encontros, seminários e congressos de
lingüística, tendo sido incentivador e fundador, em 1969,
do operoso e ainda vivo Grupo de Estudos Lingüísticos do
Estado de São Paulo (GEL). c) Incansável orientação de alunos de pós-graduação, "a qualquer hora do dia ou da noite", e participação efetiva em mais de uma centena de bancas de mestrado, doutorado, livre-docência, de concursos para titular, etc., sempre contribuindo com minuciosas e inúmeras observações críticas, rigorosamente anotadas nos textos dos trabalhos avaliados. É oportuno transcrever aqui um trecho da "Apresentação" de Estudos de Filologia e Lingüística, coletânea feita em homenagem ao prof. Salum: "É impossível avaliar a extensão dessa atividade, pois ela não rende artigos nem livros. Mas a Lingüística Românica e Portuguesa não seria a mesma sobretudo no estado de São Paulo não fossem as suas atividades, lendo minuciosamente os trabalhos que lhe são submetidos, reescrevendo traduções de obras de porte, e achando sempre tempo para ajudar quem o procura" (9). d) Participação política, não só "amargando" com a Universidade o triste e obscuro período da ditadura militar, mas também, no dizer de Antonio Candido, manifestando indignação e "estrilos oportunos quando os princípios estão em jogo" (10). Para concluir este depoimento, gostaria de apresentar aqui um texto inédito que constitui um testemunho vivo da figura humana e intelectual do prof. Salum. Já foi dito aqui e freqüentemente é reiterado o fato de que a trabalhosa atividade crítica do Mestre, ao julgar e comentar pacientemente monografias e teses, não lhe rendeu publicações. Talvez, por isso, vale transcrever uma pequena amostra dessas anotações, pois dificilmente serão publicadas, uma vez que se encontram espalhadas por essa mais de uma centena de trabalhos que o prof. Salum argüiu e criticou. Em 1973, tive a honra de defender a minha tese de doutoramento, Perspectivas da Etimologia para o Estudo Etimológico-semântico da Família de Kára, perante uma banca memorável, formada pelos professores Isaac Nicolau Salum (orientador), Theodoro Maurer Jr, Robert Aubreton, José Cavalcante e Francisco da Silva Borba. Depois de árdua defesa, recebi das mãos do prof. Salum o seu exemplar, com aproximadamente umas 250 anotações: eram críticas e observações perspicazes sobre problemas de forma e de conteúdo. Guardo-as carinhosamente e sempre volto a elas quando batem as saudades ou quando quero dar uma lição de método e de bom senso a algum orientando. Pois bem, dentre essas anotações todas, feitas com paciente labor e... com afeto, há uma que certamente fala por si, ilustrando para as novas gerações o perfil inteiro do prof. Salum: humanista, humilde e sábio. Vou contextualizar a referida anotação. A certa altura da tese, para defender a importância dos estudos clássicos, citei, como apoio, as ponderações do prof. Salum e do prof. Aubreton a quem chamei humanistas e que ora transcrevo: " ... (a explicação dos dias da semana) não mata fome de alimentos nem satisfaz a ambição de possuir um aparelho ou um carro, nem mata um inimigo na guerra, nem nos leva à Lua ou a Marte mas trará Marte, a Lua e até Saturno, nos nomes dos dias, à nossa convivência semanal e diária..." (11). "O melhor engenheiro, o melhor químico, o melhor físico, não será somente aquele que acumular inúmeros conhecimentos: será essencialmente um homem que tiver consciência do valor do homem, que for capaz de ir além de seus conhecimentos materiais. Terá de lutar contra a matéria e o materialismo que o envolve. Será somente capaz de fazê-lo depois de ter recebido uma formação profunda, de ter tido contato estreito com o pensamento dos homens de todos os tempos e de todas as latitudes..." (12). E aqui deixo para o leitor saborear a anotação crítica (verso da p. 74 de minha tese), em que o querido prof. Salum, ao protestar contra o epíteto humanista, a ele aplicado, permite-nos desenhar a inteireza de sua figura humana e intelectual, mais do que nunca viva entre nós, com a sua humanidade, mas sobretudo com a sua generosidade e a sua grandeza de espírito: "Se
o prof. Aubreton é um humanista, eu não posso ser posto
junto: ele é um nome europeu, eu sou apenas um professorzinho
brasileiro, que, especialmente nestes últimos anos, só
estudo um pouco de teimoso. Não,
prof. Salum, nós é que lhe agradecemos por tudo o que
o senhor fez pela Faculdade, pela Universidade e pela cultura brasileira. ENVIE SEU COMENTÁRIO - CLIQUE AQUI ISAAC NICOLAU SALUM Conceição
Lima Sobre a nossa Ventania, assim escreveu o inesquecível Prof. Dr. Isaac Nicolau Salum, um dos grandes expoentes culturais de nossa terra. "Nasci em 1913, e passei meus primeiros dezessete anos de vida num arraial do sul de Minas, chamado oficialmente São Sebastião da Ventania, e por nós Ventania, mas que passou a chamar-se, em setembro de 1914, Alpinópolis, sem qualquer semelhança com os Alpes. Complexos de inferioridade de um arraial, cuja grande aspiração era tornar-se vila. O Abrão Turco um maometano local, de alto porte e barbas grandes, cuja lembrança hoje me faz pensar no 'Moisés' de Miguel Ângelo, apostava céptico: 'Se Bentania bira de bila, Abrão bira de cabalo'. Pois veio a vitória: em 17/XII/1938, passou o meu arraial a cidade, a comarca, e hoje tem três ou quatro grupos escolares e um ginásio estadual, e mantém, no seu município, a hidrelétrica de Furnas, que manda luz para São Paulo" (Isaac Nicolau Salum). A respeito da pitoresca afirmação do Abrão Turco citada por Salum, nosso querido André Rodrigues questiona-me o seguinte: O que ele queria dizer com a expressão; "'Se Bentania bira de bila, Abrão bira de cabalo?" Sinceramente não entendi: Se Ventania vira de vila, Abrão vira de cabalo? É isso?" E eu respondo com o maior prazer: A
expressão citada representa o "modo turco" de falar
português, por influência do substrato da língua
materna do nosso personagem, o Abrão Turco. Esse tipo de fala
tem servido para caracterizar ironicamente, como se fosse uma "charge",
a linguagem dos imigrantes turcos. Aliás, são várias
as línguas e dialetos que trocam o fonema [v] pelo [b]. Os russos,
por exemplo, pronunciariam o nome "Vera" como se fosse "Biera".
Até o nosso português popular costuma falar "bassoura"
em vez de "vassoura", "barrer" no lugar de "varrer". Sexta-feira, 28 de abril de 2006 15:12 Dimas Ferreira Lopes - dimasfl@terra.com.br Estimado André, quero felicitá-lo pela divulgação de matéria cuja personagem principal é nosso conterrâneo Isaac Nicolau Salum. Subscreve o artigo o renomado Professor Doutor Izidoro Blinkstein - Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Mestre Blinkstein, no fecho de seu artigo, reporta-se a uma manifestação do Mestre lsaac, quando este, mercê de sua legítima humildade, se auto proclama um professorzinho brasileiro. Não resisti e marejaram-me as lágrimas, assim o confesso. Algo na vida desse grande professor brasileiro me comove desde a leitura de dois depoimentos escritos que, por solicitação de meu finado pai Iglair Lopes, prestaram-no, para registro no livro História de Alpinópolis, nossos caríssimos Toniquinho - Professor Doutor Antônio Silveira Reis e Professora Martha Reis Souza. Os predicativos da humildade, competência e sabedoria estão presentes nas apreciações de Izidoro Blinktein, Antônio Reis e Martha Souza. Dona Martha chega a dizer: Professor, pregador do Evangelho, de conhecimento e sabedoria indescritíveis, Isaac não aceitaria elogios e estaria mudando e corrigindo este texto se o lesse e, com certeza, não o aceitaria. Mestre Antônio Reis revela a existência de uma elogiosa carta do Poeta Carlos Drummond de Andrade dirigida ao Professor Salum: O Isá, numa longa carta que me enviou em 14-3-88, transcreve uma apreciação que o poeta Drumrnond fizera a urna sua análise esquemática de texto, na abordagem do famoso poema No meio do Caminho. Transcrevo o texto do poeta, desobedecendo ao pedido do Isá que, certamente, por urna espécie de pudor intelectual, pedia-me silêncio de seu teor. Fui leal a seu pedido até agora. Ho)e, para a sua memória, já não faz sentido o silêncio. Soube que, no prédio da futura Casa da Cultura de Alpinópolis, nomes de ilustres alpinopolenses serão atribuídos às salas (de estudos, de pesquisas, biblioteca, arquivo, memória etc.). Aproveito para pedir SALA PROFESSOR DOUTOR ISAAC NICOLAU SALUM, assim mesmo, com todas as referências aos seus títulos acadêmicos, que, por humildade, ele dispensaria, mas que não se pode dispensar por ser estímulo à nova geração de estudantes da Ventania. ALPINÓPOLIS, Mestre lsaac, perdeu o complexo de inferioridade de ser arraial, vila. Sua estatística sobre os quatro grupos escolares está defasada, a cidade cresceu... mas não mais sediamos a "hidrelétrica de Furnas, que manda luz para São Paulo". Domingo, 30 de abril de 2006 16:06 Hilda Mendonça - hilda_mendonca@hotmail.com André, que gratíssima oportunidade tive hoje ao abrir o site Ventaniaonline e deparar-me com o longo e substancioso artigo sobre o conterrâneo Isaac Nicolau Salum, que figura admirável deve ter sido este professor e no entanto creio também que foi muito humilde em sua sabedoria, pois acho que poucos alpinopolenses sabiam desta figura tão digna e filho de nossa terra. Pena que não deixou seus conhecimentos registrados em livro, mas é motivo de orgulho de nossa Alpinópolis ter um filho tão ilustre, creia-me, o trabalho que você desevolve no site Ventaniaonline é também de rara grandeza, que Deus o ilumine sempre. À propósito, eu me achava maluca por emprestar pontos aos meus alunos para serem pagos na próxima prova e agora vejo que o professor Salum já o fazia muito antes de mim, deve de ser coisa de nós, Ventania. Abração a você e família |
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