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Como foi seu início de carreira?
Eu
saí muito novo de casa, com meus quinze anos fui morar em Belo Horizonte,
nessa época não tinha intenção nenhuma de mexer
com música, depois eu voltei para cursar uma faculdade na cidade
de Batatais / SP e trabalhei em São Paulo(Capital) por sete anos
como educador físico. Depois disso, fiz um curso de piloto de avião
e fui para a Europa, na Alemanha onde comecei a dedilhar o meu violão
e foi ali que eu fui ver que a música fazia parte da minha vida.
Abdiquei de tudo, das profissões que eu tive e tenho e comecei a
trabalhar com a música. Eu dei voltas pela Alemanha, morei lá
durante nove meses, e comecei a tocar e a dedilhar o violão (usando
as cifras das revistinhas vendidas em banca) e ali foi. A primeira música
que eu aprendi foi Preta Pretinha, dos Novos Baianos. Depois eu voltei para
o Brasil, continuei em São Paulo aí tocando já nos
bares, universidades e vim à Passos que é onde eu considero
que praticamente começou minha carreira profissional como músico.
O que
lhe prende aqui à região Sul de Minas?
Essa
parte da minha história que eu contei responde o porquê de
continuar aqui na região. Sempre que volto aqui na Ventania, eu
encontro o lado da simplicidade, o lado bucólico, perto do mato,
cheio de serras e de cachoeiras, e essas coisas me prendem. Estou em São
Paulo de novo, voltei e estou morando lá na capital, mas pretendo,
assim que a carreira se solidificar mais, voltar pra cá, pra Ventania.
Daqui para os shows, dos shows para *cá, porque eu não desejo
nada do mundo senão viver sossegado, tocar minha viola, ter minha
esposa, meu filho e criá-lo com a viola.
Apesar
de já ter demonstrado algumas preferências, que tipo de trabalho
mais lhe dá prazer hoje?
Eu
vou te falar que depois de velho fui ver o que é tocar um violão
e cantar músicas em shows onde se passa realmente alguma coisa
com a música para o ouvinte. É muito fácil fazer
dinheiro com música, basta você pagar uma "mídia",
que ela vai e faz para você a divulgação que desejar.
Por outro lado, as gravadoras estão levando o Brasil a uma decadência
musical e cultural fora de série e o jovem não está
se tocando disso. Apesar disso, tem um Brasil querendo fazer música
para quem gosta de música, querendo e tentando passar alguma coisa
útil e é o que eu tento fazer com as minhas composições
próprias, em arranjos que eu faço, em pesquisas de música
raiz. Eu prefiro fazer menos shows, mas fazer com gosto, com um público
seleto, que goste de ouvir músicas e letras, que realmente goste
de música e não de lixo cultural.
Santo
de casa faz milagre?
É difícil, mas eu tenho feito. Deus está dando *
"uma de mão" pra mim que está dando certo. Eu
falo porque eu adoro a Ventania, mas o povo que mais me abraçou
e abraça é o povo passense. Eu devo a minha carreira quase
que todinha ao povo de Passos. Na minha cidade tem o pessoal que gosta,
tem o pessoal que confunde, talvez pelo fato de estarem acostumados a
te ver muito, têm um contato mais próximo, então realmente
fica uma coisa comum e por isso deixam de te valorizar.
De acordo
com a sua visão o que é ser mineiro?
Ser
mineiro é ter sossego, é não ficar apegado a parte
financeira, se ela vier está de bom tamanho, mas vai saber empregar
esse dinheiro, usar numa bacia de pão de queijo, poder comprar
mais frango caipira, é ter esse jeito fácil de levar a vida
com responsabilidade, mas com muito sossego, e transparência principalmente.
As pessoas, principalmente de outras regiões do país, vêem
que somos realmente muito espertos, mas tem aquele lado mais sossegado,
mais calmo, pacato, um jeito bem particular de ver as coisas, achar que
não conhece mas com um conhecimento muito grande.
Dá
para afirmar que hoje é "chic" ser caipira?
Uai,
uns falam, talvez pelo fato da mídia divulgar algumas músicas
sertanejas, e é quando eles usam muito o termo "caipira",
mas que de caipira esse pessoal não tem nada. A mídia é
que faz eles falarem isso, mas não conseguem passar isso na música.
Eu sempre achei "chic", nunca escondi minha identidade, morei
muito tempo fora, fiz faculdade, maior parte da minha vida morei em capitais,
até fora do país, falo meu inglês, mas, sobretudo
eu acho que um lado bom do caipira é ser autêntico e isso
é motivo de muito orgulho.
Fale um
pouco do seu novo trabalho, do novo CD que estará sendo lançado
nos próximos meses?
Esse
trabalho foi o que mais demorou a gravar, porque eu fiz uma pesquisa muito
grande da música raiz, caipira, a música sertaneja autêntica.
No meu primeiro disco eu tinha acabado de sair dos bares, então
era uma mistura de MPB com música raiz. Já o segundo veio
mais autoral, com músicas minhas e foi quando comecei a ir mais
para o lado caipira, para o lado da música raiz. Esse de agora
está totalmente pé no chão, é um pé
no estrume de vaca e uma mão na espiga de milho, esse é
bem roça mesmo. Pesquisei muito, fui rever músicas de Mário
Zan - grande sanfoneiro que a gente tem, autor da Chalana. Regravei Nhô
Pai, Nonô Basílio que é o pai da nossa música
sertaneja, tem aí o Pena Branca e o finado Xavantinho, Renato Teixeira,
Almir Sater , Tonico e Tinoco, Sérgio Reis, Craveiro e Cravinho,
têm muita gente e eu pesquisei de tudo. Usamos muitos instrumentos
típicos da música caipira, a sanfona que eu adoro, a viola
de 10 cordas (caipira), que pra mim é alma da música caipira.
Porque hoje você vê essas duplas sertanejas e é muito
difícil ver uma viola caipira. Falam muito de viola caipira, mas
é só camisa de seda e guitarras, não dá para
entender, e eu fico chateado com isso. Então não tem como,
o Brasil está cheio de ritmos aí, muitos gostos, a gente
tem que respeitar, mas de caipira realmente essa música que tocam
por aí não está tendo nada.
Quantas
músicas suas tem nesse CD?
Nesse
CD eu tenho só duas músicas. Uma chamada Vida de Peão
que tem até um fato interessante. No ano de 2003 eu estava morando
em Manaus e divulgando o trabalho do segundo disco e conheci o Tião
Procópio, um dos maiores campeões de rodeio do país,
e que foi o motivo inspirador da novela América. Nesse período,
veio a Glória Perez e pediu para o Tião Procópio
para fazer a assessoria na novela, e foi ali que ele conheceu a minha
música "Vida de Peão", letra e música minha
e foi nessa ocasião que ele tentou colocá-la na novela.
Enfim, o Tião Procópio falou com o
diretor Jaime Monjardim e o produtor musical Marcos Vianna da Rede Globo,
mas infelizmente mais uma vez a mídia prevaleceu. Não deu
certo essa música, mas está de bom tamanho, só de
ter tido contato com esse pessoal, já valeu o interesse.
O que
lhe inspira para compor?
É
engraçado, porque tem várias coisas, cada artista tem um
jeito de buscar inspiração. O pintor, o escultor, o músico.
Tristeza é uma inspiração, aliás, uma grande
companhia para essas horas, para poder fazer música. Eu já
fiz bastante música triste, sofrendo mesmo devido à situação
financeira, situação amorosa, e isso tudo me inspira. Alegria,
boteco, bar, é muito bom a gente poder viver esse lado boêmio,
onde se aprende, porque bar também é cultura.
A maioria
dos artistas brasileiros poderia se beneficiar com as leis de incentivo
à cultura, em especial as Leis Estaduais de Incentivo a Cultura
e a Lei Rouanet em nível federal. Você já pleiteou
recursos para produzir algum de seus trabalhos?
Não. Eu tenho buscado recursos próprios, com amigos nossos,
patrocinadores, mas tudo por conta própria. Até conheço
gente que já foi beneficiada aqui em Passos e na região
com essas leis de incentivo à cultura. Mas eu tenho um projeto
sim, devo gravar um DVD no fim de 2006, através da lei de incentivo
à cultura. Já mandei o projeto para Belo Horizonte, onde
tem um amigo da gente que trabalha com essa parte de formatação
de projetos, então a gente já está caminhando para
isso, e seria o próximo disco com um DVD para o fim do ano.
Como você
pensa esse DVD, em forma de Clipes, mesclado com documentário?
Tem
muita coisa, estaríamos trabalhando com Make in Off em shows e
outras gravações, tem clipe, tem o lado de mostrar a região,
a Ventania, eu quero fazer isso, porque lá é rico por natureza
e por beleza cultural. A gente até está perdendo um pouco
essa coisa da cultura popular, por exemplo, nas folias de reis e outras
manifestações, e isso é interessante colocar, porque
a nossa riqueza, digo da Ventania e toda a nossa região está
muito nisso, na cultura popular. Busco também a participação
de artistas como o Rolando Boldrin, que para mim é o papa da música
caipira, de raiz, e
também em convidar o Almir Sater, que dispensa qualquer tipo de
comentário . Se tudo correr bem, os dois estarão no DVD
participando desse projeto.
Você
já viajou bastante, esteve na Alemanha, na Inglaterra, deve ter
conhecido grande parte da Europa. Gostaria de saber, com relação
ao povo, o que você conseguiu perceber de diferenças entre
as pessoas desses países europeus e os latino-americanos?
Primeiro
que culturalmente falando, a comida, a sua língua, o seu costume,
o seu vestuário, tudo muda. A primeira vez que eu saí fui
para a Alemanha, ela estava ainda separada pelo muro de Berlim em 1989,
foi nesse período que eu morei lá. Eu até vi, um
mês antes da queda do muro, eu trabalhei em Berlim, colocando carpetes
nas quadras de tênis e o muro tava lá. Então você
atravessa todinha a Alemanha e a diferença era gritante de um país
para o outro. Esse choque para mim realmente foi bravo e depois que eu
voltei fui para a Inglaterra, onde morei dois anos e meio em Londres,
mas já estava acostumado com a Europa. As pessoas dizem que o europeu
é frio. Depende muito de você, porque se você for um
caboclo frio, você irá achar o europeu frio e ele irá
te achar frio também. Vamos dizer assim, não é igual
ao brasileiro, fácil de fazer amizade, não tenha dúvidas
de que os países latinos, mesmo os da Europa, como a Espanha e
a Itália, tem um pessoal mais alegre, isso aí é deles
lá. Em 2000 eu fui para Machu Picchu no Peru, aí cortei
outros países como a Bolívia, a Colômbia e o Peru.
E a gente percebe, que dentro do próprio continente sul-americano
há uma diferença grande, enorme. Você vê que
não é só a cultura européia, só a norte-americana,
a nossa cultura aqui na América Latina também apresenta
diferenças gritantes, principalmente no que diz respeito ao ser
humano e seus valores.
E aqui,
dentro do país, você conseguiu perceber muita diferença
entre as diversas regiões do país?
Realmente
isso acontece e é engraçado, porque, por exemplo, aquela
região norte do país, ao mesmo tempo que está dentro
do país eles também estão meio isolados. Ali, basicamente
predomina a cultura indígena, para tudo que você olha, e
no meu caso depois de velho é que eu fui conhecer o significado
de alguns nomes indígenas. Pouca gente sabe, por exemplo, que "urubu"
é uma palavra indígena, ou seja, pra gente é tão
comum a palavra urubu e jamais passa pela nossa cabeça perguntar
de onde vem esse nome.
Apesar
de ter viajado bastante, conhecer outros países, outras regiões
bem diferentes da nossa você acabou voltando para a terrinha. Valeu
a pena ter ido buscar "coisas" lá fora e de repente perceber
que o que você quer está é aqui?
Essa
experiência de ir e vir é um legado que ninguém te
dá, nem pai, nem mãe e nem ninguém. Eu falo com relação
às rotinas que vão fazer você viver, que vão
te dar bagagem para poder ser sempre legal, instigante, é chegar
nos lugares e dizer "tô no lugar certo, tô fazendo bem
feito, tô me realizando". Porque na vida é muito difícil
as pessoas fazerem o que gostam e quando se faz o que gosta, você
faz bem feito. É o que eu tento fazer com a música, tento
sempre passar isso, esse bem estar com a música. Hoje você
tem a Internet, então não existem mais distâncias,
mas quando você pisa no local, sente a novidade * aí o aprendizado
está se cumprindo. Até tem uma música que eu gosto
muito de citar, que é do meu segundo disco, "Dona vida"
é o nome dela, é uma estória onde eu converso com
a vida, e ela fala assim:"Olha aqui dona vida, o que eu aprendi,
não se mede no braço, é preciso sentir", então
é uma frase bem profunda isso aí e fala justamente da prática,
do fazer, do ir atrás.
Qual o
ingrediente principal para se trabalhar com a música raiz?
Em
primeiro lugar o caboclo tem que ter consciência, estar ciente do
que está falando. Não é simplesmente ir compondo
músicas e falar que é sertaneja, dobrar um chapéu,
botar uma camisa de seda, tocar uma guitarra, botar um brinquinho na orelha
e começar a gritar. O problema é que a mídia compra
isso, e vende, o pior é isso. São pagos os "jabás",
porque tem certas músicas que tocam no rádio não
porque o povo está gostando, mas porque é pago para tocar,
é o jabá, e o brasileiro engole isso achando que é
sucesso. Você é obrigado a escutar aquilo, porque você
muda de uma estação para outra é a mesma coisa, você
vai procurar na televisão é a mesma coisa. É uma
lavagem cerebral o que eles fazem, o teu subconsciente escuta aquilo,
você dorme pensando naquilo, no outro dia você já está,
inconscientemente querendo ouvir a música de novo, assobia sem
querer e às vezes até canta aquilo, mesmo sem gostar. Hoje
o jovem poderia estar buscando informações em uma revista
de boa procedência, num jornal, usar a Internet para coisas boas
e não para ficar ali naqueles bate-papos. Vai para o boteco conversar
de verdade, olhar no olho e no brilho do outro, agora fica nesses tal
de "iogurt"(risos) da vida. Não, isso para mim não
vira. Então eu acho que realmente, para o cara fazer uma boa música
de raiz tem que ter muita consciência. Não é só
na música sertaneja que tem isso, há o pagode de raiz, o
forró de raiz, não essa coisa comercial, que você
compra aí embalada, certinha, bonitinha, mas que por dentro não
tem aquele bom conteúdo. Às vezes eu acho que o Brasil está
na contramão da música, e ainda assim somos ricos musicalmente.
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