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A alpinopolense, Maria Conceição Alves de Lima, atualmente é professora titular da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, atuando em pesquisas lingüísticas e pedagógicas, bem como na docência (pós-graduação e graduação).
Titulação:

BRASILEIRO, ESSE FILHO DA P...
Maria Conceição Alves de Lima
11 de julho de 2005Não me processem... Não me processem... Estou apenas repetindo o que a ciência diz... Ou melhor, o que a Psicologia do Inconsciente Coletivo de Carl Jung nos ensina. Para esse estudioso da alma humana, cada indivíduo carrega dentro de si todas as influências psíquicas pelas quais passaram os seus ancestrais, desde os parentes mais próximos (seus pais, avós, bisavós etc.) até as suas longínquas raízes nacionais e mesmo biológicas. O nosso povo brasileiro, originalmente, uma incrível e explosiva "mistura" de três raças muito sugestivas (o colonizador branco português, "culto" e machista; o índio livre, mas selvagem e "ingênuo"; o negro escravizado, humilhado e sofrido) é - ou pode ser - a maior "desgraça" ou benção cultural do planeta.
Um exemplo bem claro dessa "benção" cultural é o tipo de religiosidade de nosso povo: costumamos nos autodenominar de "o maior país católico do mundo", mas a psique religiosa do brasileiro não é bem aquela "oficial" da Igreja Católica (ou de qualquer outra Igreja Cristã). Aqui, o Deus cristão dos portugueses embolou-se com a as pajelanças indígenas e abriu os braços para os orixás vindos no coração dos povos negros escravizados. E esse "ecumenismo" religioso, essa maravilhosa tolerância e respeito pela diversidade fincaram tão fortes raízes em solo brasileiro, que não há concílio, ameaça de inferno ou preconceito social que mude. A bem da verdade, gosto de pensar que o próprio Cristo "adorou" essa mistura! Pois não é ele mesmo que nos declara todos irmãos? Talvez seja por isso que se costuma dizer: "Deus é brasileiro!".
Agora, a razão de sermos um "povinho" F.D.P não é, evidentemente, religiosa: é bem outra! Digamos, um motivo puramente social, ou melhor, sócio-machista. Carl Jung nos fala do feminino como sendo a própria energia da vida. Isto, aliás, fica bem evidente quando se percebe que a mulher (de qualquer raça, profissão ou condição social) é a que gera e mantém a vida: a mãe, a matriz. Para conseguir realizar tal proeza, segundo Jung, o feminino foi dotado de todas as forças positivas do universo: a anima (ou alma), o espírito de vida que anima, que nos torna capazes de sermos corajosos, persistentes, intuitivos, pacientes, generosos, criativos e livres. E ainda capazes de conhecer as sutis nuances da espiritualidade, de refazer e percorrer um caminho interior, reconstituindo a auto-estima, o desejo de crescer, de satisfazer aqueles sentimentos e anseios que foram reprimidos pelos valores, cobranças e imposições do animus (ou ânimo - mas também animal), o lado masculino da vida, forte e viril, porém opressivo e egoísta.
Os colonizadores portugueses que aportaram nesta terra brasileira eram todos homens: a História, pelo que me consta, não registra nenhuma mulher "colonizadora" dentre eles. Aqui chegando, sem suas santas esposas portuguesas, obviamente, quem lhes iria servir de objeto sexual? As índias, é claro, a quem consideravam como um bicho, a quem não se devia o menor respeito ou consideração: portanto, a puta! E nós, os filhos dessa união, não somos, evidentemente, filhos da "santa". Somos os filhos da... "outra"!
E desde então temos sido mesmo uma sociedade FDP. Vejam o nosso sistema social: que egoísmo e injustiça na distribuição de nossas riquezas! Que desprezo e desrespeito para com os fracos, os necessitados, os que buscam os serviços públicos! Que insensibilidade para com a nossa saúde, educação e segurança! Vejam, principalmente, as nossas autoridades, os nossos "poderes públicos": que safadeza, que baderna, que corrupção, que vergonha! Observem o desrespeito para com a mãe-terra, o nosso meio ambiente. Não somos mesmos uns filhos da p...?
Mas... os psicólogos que acreditam em Jung dizem que pode haver salvação. Tudo vai depender, primeiramente, de nossos machos adultos, que precisam adquirir "alma" e "consciência", esses valores femininos que somente podem ser aprendidos com as mulheres. Porém, as mulheres, as que educam os machos, precisam usar essa alma e consciência, no momento de cortar as asinhas dos "machinhos-crianças" que geraram e estão educando.
Assim, homens e mulheres serão levados a resgatar a força da dimensão feminina, ou seja, a alma e a consciência coletivas. Esse movimento de resgate, além de refletir a busca pela própria decência, é também uma reação a uma cultura que, por muito tempo, desprezou, oprimiu e reprimiu as mulheres, que cultuou apenas os valores masculinos e que agora precisa reencontrar a outra dimensão da alma - o lado feminino, para reconhecê-lo e integrá-lo na consciência do homem pós-moderno.
Vamos quebrar o círculo vicioso do inconsciente coletivo brasileiro! Não importa que tenhamos sido os filhos da puta! O importante, é que passemos, doravante, a ser mães e pais de seres humanos íntegros e conscientes!
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PROFESSOR, O NOVO "JECA TATU"?
OLHA AÍ O "BURNOUT"!...
22 de junho de 2005
Maria Conceição Alves de Lima
Quem não se lembra do Jeca Tatu, aquele personagem do Monteiro Lobato, sempre desanimado, cansado, a quem todos chamavam de preguiçoso? Pois é, no fim de tudo, não se tratava de preguiça, era doença mesmo. Verminose das "brabas"!
Atualmente, há uma estimativa de que 50% dos professores já apresentam sintomas idênticos aos do Jeca Tatu. Mas não se ofendam, caros mestres, não os estou chamando de lombriguentos. Não se trata de vermes, mas de coisa muito pior: uma doença "pós-moderna", a síndrome de burnout. Até que gostaria de dizer que não se trata de nada sério, que não é preciso se preocupar, que logo o professor dá a volta por cima etc etc. Mas não é bem assim. O burnout é uma "nova" e traiçoeira doença profissional, em que o trabalhador afetado sente-se exausto, sofre de insônia, úlcera, dores de cabeça, problemas de pressão sangüínea, tensão muscular e fadiga permanente. É de se esperar que ocorram também sentimentos de insegurança e ansiedade, levando ao stress crônico e à depressão.
É claro que, em princípio, o trabalho não faz mal a ninguém, as pessoas gostam de trabalhar, de se sentirem produtivas. É a sensação de dar sentido à própria existência. Basta ver o sofrimento de um desempregado ou a difícil adaptação de um recém-aposentado. Porém, trabalhar muito, trabalhar demais é problemático, principalmente se a profissão é mal-remunerada, se é objeto de constantes críticas e carregada de cobranças gratuitas e insensatas. No caso dos professores, os fatores estressantes são a falta de uma boa preparação e formação, a incompetência da administração pública, as aulas massificadas. Também o vandalismo nas escolas, as agressões por parte dos alunos, a indisciplina escolar, a violência entre alunos, a infra-estrutura das escolas, o baixo salário traduzem-se em condições humilhantes para os professores, que os levam a duvidar do seu real valor na sociedade.
Houve um tempo em que a profissão docente significava uma identidade carregada de orgulho profissional, gozava de amplo prestígio social. Os tempos mudaram, o ensino mudou, a escola mudou e o professor se viu diante de desafios desumanos, de expectativas sociais por demais exigentes. Assim é que, no atual modelo, muitas são as atribuições impostas ao professor, as quais extrapolam os seus interesses e, muitas vezes, a sua carga horária. Além das aulas e de sua preparação, ele deve fazer trabalhos administrativos, planejar, reciclar-se, investigar, orientar alunos e pais. Também deve organizar atividades extra-escolares, participar de reuniões de coordenação, de seminários e conselhos de classe, efetuar processos de recuperação, preencher inúmeros relatórios e, muitas vezes, cuidar do patrimônio, material, dos recreios e locais de refeições. Entretanto, além de ganhar uma "miséria", é excluído das decisões institucionais, das reestruturações curriculares, do repensar da escola, sendo concebido como mero executor de propostas e idéias gestadas por outros.
Pelo fato de o trabalho lhe exigir muito esforço e render pouco, o professor se vê às voltas com o conflito entre trabalho e família. Se, de um lado, há necessidade de trabalhar demais, do outro há a necessidade de dedicar mais tempo ao lar, ao companheiro, aos filhos; enfim, um paradoxo, uma angústia instalada. Além do mais, o seu próprio estilo de formação profissional, seu envolvimento, a responsabilidade social de seu trabalho, sua própria consciência e visão de mundo tendem a tornar o professor mais sensível e exposto à exaustão emocional. O resultado disso tudo não podia ser outro: o sofrimento psíquico, o esgotamento mental e emocional, a despersonalização e a perda da energia vital.
O termo burnout significa exatamente isso: um sentimento de fracasso e exaustão, causado por um excessivo desgaste de energia. Burnout é um processo que se desenvolve com o passar do tempo, ocorrendo sempre que o lado humano do trabalhador não é considerado. Seu surgimento é lento, cumulativo, não sendo percebido pelo indivíduo que, geralmente, se recusa a acreditar que esteja acontecendo algo de errado com ele. Vale ressaltar que a síndrome ocorre principalmente em trabalhadores altamente motivados, que procuram enfrentar esse stress laboral trabalhando ainda mais, até que entrem em colapso.
Como resultado, vêm a perda da criatividade, o tédio e o aborrecimento, a exaustão emocional, a despersonalização e o sentimento de pouca realização profissional. Nessa dimensão, o indivíduo apresenta ansiedade, incapacidade de relaxar, aumento de irritabilidade, perda de motivação, redução das metas de trabalho e do idealismo, alienação e uma tendência a se auto-avaliar de forma negativa. As pessoas sentem-se infelizes e insatisfeitas com elas próprias e com seu desenvolvimento profissional, experimentando dúvidas acerca de sua competência, além de uma baixíssima auto-estima. Daí surge o declínio de sua capacidade em interagir com as pessoas, sejam elas clientes, pacientes, alunos ou colegas de trabalho. As faltas e o afastamento do serviço aumentam assustadoramente, chegando-se ao abuso de bebidas alcoólicas e a outros comportamentos de alto risco, como a prática de jogos de azar e o uso de drogas.
Os estudos sobre burnout tiveram início com os profissionais da saúde, principalmente os enfermeiros, altamente estressados por pacientes difíceis. No entanto, os estudiosos da síndrome afirmam que essa doença vem afetando todos os trabalhadores que mantêm contato direto e prolongado com pessoas (especialmente as "complicadas") e que, possuindo um ideal humanista em seu trabalho, defrontam-se com um sistema geralmente desumanizado e excludente. Atualmente, a campeã de burnout é a classe dos professores. Assim, essa síndrome tem sido considerada um problema social de extrema relevância e vem sendo estudada em vários países. Aliás, a prevenção do stress no trabalho será um dos maiores desafios da área da saúde ocupacional no século XXI.
Na Idade Média, pessoas eram queimadas como bruxas até que se descobria que estavam doentes dos nervos. Hoje, os professores são "crucificados", sem se pensar nas conseqüências educacionais futuras, esquecendo-se de que eles são o capital social mais importante para a sobrevivência e o desenvolvimento cultural da humanidade. Portanto, é preciso que a sociedade seja alertada, o poder público conscientizado: caso os professores não sejam incluídos naquilo que hoje denominamos de agenda positiva (valorização profissional e pessoal, respeito e generosidade), essa classe corre o risco de extinção. Alunos, pais, autoridades, população em geral, tratem de se acautelar! "Olha aí o burnout!".
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IDÉIAS PARA REINVENTAR O NATAL - DEZ/2004
Maria Conceição Alves de LimaDezembro chegou e a canção vem nos alertar de que "Então é Natal..." e de que, em dezembro, é imperdoável não se falar em Natal. Pensando nisso, ocorreram-me algumas idéias que poderiam servir para compor um Auto de Natal mais afinado com os tempos pós-modernos. Assim, proponho situar Belém, não na Palestina, mas no Brasil mesmo, quem sabe na própria favela da Cidade de Deus.
Maria não seria mais aquela doce e esguia jovem de pele e cabelos claros, olhos azuis etc. etc. Seria uma mulher negra e robusta, a própria Maria Aparecida do Brasil. José, de há muito que deixou a profissão de carpinteiro. Agora está desempregado e, de vez em quando, faz uns bicos como bóia-fria. Até mesmo o Anjo Gabriel não viria pessoalmente fazer a Anunciação: mandaria um e-mail com sua mensagem em três dimensões (ou holográfica, como se diz).
A viagem a Belém não seria em função do recenseamento, como nos idos do Império Romano. Agora, seria bem mais penosa e estressante, para cumprir a via-sacra de se conseguir um benefício do INSS.
A estrela de Belém seria identificada como um satélite da NASA que, misteriosamente, deixou sua órbita terrestre e veio iluminar o barraco do nascimento. Os anjos entoariam canções do tipo "rap", compostas (quem sabe?) pela própria turma do Laranjinha e do Acerola, ou mesmo um pagode incrementado recém-lançado pelo Zeca Pagodinho. Mas, de qualquer forma, a noite continuaria feliz, como nos velhos tempos de dois mil anos atrás.
Os poderosíssimos Reis Magos não viriam (pelo menos todos) do Oriente, mas do Ocidente mesmo. Bush, com certeza, seria um deles e traria não ouro, mas Euro (que está valendo bem mais que o dólar). O segundo poderia ser o Bill Gates ou, quem sabe, um executivo japonês da Semp-Toshiba. O certo é que trariam, em vez de mirra, uma parafernália eletrônica, para lembrar a nossa humilde dependência tecnológica. O terceiro Mago (para prestigiar o povo brasileiro) poderia ser o nosso Lula-Presidente. Este traria, com certeza, incenso mesmo e se apresentaria como Lulinha Paz-e-Amor.
O Menino (ah! O Menino...) este, sim, continuaria o mesmo em essência e aparência. Eu o imagino sempre sorrindo, aquele sorriso de ternura, de amor incondicional, de divindade, de esperança, de paz, de renovação e tantas outras coisas boas mais, para as quais somente o Natal consegue nos sensibilizar. Afinal, somente Ele, o Menino, é quem pode corporificar a essência de todos os Natais, é quem consegue revivificar, a cada ano, a promessa de transformação e renovação espiritual do ser humano, é quem sustenta a esperança neste vale de lágrimas.
Por último, faço a recomendação de que este Auto de Natal seja representando não nas igrejas, praças ou teatros, mas em cada família onde uma farta ceia seja a única motivação para se celebrar o Natal.